No momento em que os mais pequeninos se estreiam ou regressam à “escola”, aqui ficam algumas reflexões. Conheça a idade “ideal”, o que ter em conta na escolha, qual deve ser a atitude dos pais na altura da “entrega” e o que fazer quando a criança adoece.
Durante muitos anos, dizia-se que a idade ideal para ir para o infantário (termo que usarei aqui como sinónimo de creche ou jardim-infantil, conforme a idade da criança) seriam os três anos e antes disso dever-se-ia ficar com a mãe ou seus substitutos (empregada, avó, familiares próximos). Contudo, os tempos e as circunstâncias mudam, e não podemos pensar como se algumas coisas se mantivesse iguais. Refiro-me ao facto de, se por um lado ser verdade que os infantários e jardins-infantis são locais onde há um risco aumentado de infeções, também são lugares de socialização e de aprendizagem cognitiva e de dinâmicas de grupo (e de companhia pelos pares) que as casas atualmente não têm, pelo menos em meio urbano.
Uma coisa é viver numa casa num ambiente de aldeia, com muitos irmãos, com primos e vizinhos e uma ampla liberdade de explorar a terra, as brincadeiras, as fazendas e as árvores, outra é estar só, em meio urbano, limitado a quatro paredes de um qualquer apartamento e, quanto muito, ter direito a uma ida ao supermercado ou a uns minutos de parque infantil por dia, salvo quando chove. O resultado destas duas experiências são muito diferentes. E os dois anos, dois e meio, serão, na minha opinião, a idade adequada para ir para um infantário, caso até aí a criança não tenha já entrado na escola pela ausência de alternativas.
A escolha do estabelecimento
A escolha de um estabelecimento nem sempre é fácil, dado que há muitos factores que contam: proximidade, mensalidade, localização na rota diária dos pais, informações e referência de pessoas conhecidas, aspecto, simpatia e segurança.
Trata-se de uma solução que não é barata e que, muitas vezes, só o dia-a-dia permitirá dizer da sua eficácia e do seu sucesso.
Há vários factores a ter em linha de conta na escolha de um infantário:
- afetividade espontânea;
- espaço;
- atividades;
- hora de dormir (um infantário onde a sesta não é permitia aos “maiores de três anos” está a dar um sinal de incompreensão do principal: as necessidades básicas da criança e em que é que se estrutura a sua dinâmica diária… será, portanto, de desconfiar, e por muito que se argumente, não há razão nenhuma para que as crianças que precisam de dormir não ocupem uma sala, para o efeito, e as outras fiquem a brincar noutra sala, misturando idades, o que será muito bom, tanto mais que, com a ausência de irmãos, as crianças sabem mal relacionar-se com mais velhos e com mais novos;
- refeições – verificar técnica e composição, em termos de alimentação e nutrição e se tem o apoio de dietista;
- competência do pessoal e número;
- festas, visitas de estudo, rituais de pertença;
- segurança, a todos os níveis;
- riscos ambientais;
- atitudes em caso de uma emergência.
A ansiedade da separação
Até aos três anos, as crianças são particularmente sensíveis ao corte que o desaparecimento físico dos pais representa. Aos 6-8 meses começam a ter noção global da cara das pessoas. Já não apenas o sorriso, os olhos, a expressão facial ou o movimento dos lábios e da boca, que lhe permitem contemplar, compreender e imitar. Quando a percepção total se dá, “há” pessoa. E se essa imagem desaparece, é difícil entender que a pessoa, nos seus diversos prolongamentos afectivos e físicos se mantem. Mesmo que o cheiro perdure ou as palavras ecoem.
Por outro lado, o bebé começa a sentir que existem objectos e coisas, algumas desagradáveis, e que o colo dos pais e a sua presença corresponde a segurança. Tudo o que precisa para se sentir bem vem “daquela” fonte: os progenitores.
É por isso que a partida dos pais, mesmo que seja por pouco tempo (e para um bebé desta idade não há nem muito nem pouco tempo, há apenas “tempo”), pode deixar a questão, angustiante: “E agora? Quem é que vai cuidar de mim?”.
Um dos momentos trágicos é a despedida. Não se pode prolongar demasiado, mas há que durar o suficiente para se dizer “adeus”, explicitamente. Escapulir sem dizer nada pode criar sentimentos de desconfiança e de incerteza. Se os pais têm que se ir embora devem fazê-lo honestamente. Claro que isto não quer dizer estar horas com beijinhos e miminhos, a prolongar a situação de despedida.
O espaço da “entrega” é doloroso porque não é “peixe nem carne” – é escola mas com pais lá dentro. Assim, o ideal é não prolongar a despedida e basear em três coisas: “temos um encontro marcado nas nossas agendas” – e os pais devem dizer ao bebé o que vão fazer (“eu vou trabalhar, depois almoçar e venho buscar-te, e tu vais brincar, comer, fazer ó-ó, papar e depois encontramo-nos”), seguidamente devem expressar bem que vão ter saudades e que não veem a hora de o voltar a ver e, finalmente, dar um beijinho na mão dele e pedir para guardar, e fazer o mesmo com ele. Assim, estará garantido, para a criança, que os pais têm programada a vinda, que têm vontade ed vir e que terão de vir recuperar o que o bebé tem deles e devolver o que o bebé lhes deu.
É natural que, quando chegarem, o vosso filho fique radiante mas, passado o momento de confirmação de que os pais realmente vieram, se afaste e vá brincar com os amigos, sentindo-se muito mais seguro.
Fonte: Revista Pais e Filhos



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